Tati Bernardi. (via falsa-poet4)
(Fonte: cantinhodalma)
“Pelo menos agora eu posso dizer que já te deixei molhada.”
Encontrei a Alice encostada na porta do vestiário masculino, mexendo no celular com uma expressão de malandragem que com certeza coincide com a do Hitler tramando a morte de milhões de pessoas. Batizei essa expressão dela de “dia do juízo final”. Ou seja, de acordo com os meus cálculos: vai dar muita merda. Ao cubo. Tirei meus fones de ouvido.
— Alice. Tá fazendo o quê aqui? — perguntei.
— Oi pra tu também. Eu tô bem, ótima, e você? Muito obrigada por perguntar, você é tão gentil, um cavalheiro...
— Gracinha.
— Tô esperando o Lip. Ele tava no banho — apontou pro vestiário com a cabeça —, mas foi falar com o diretor e depois a gente vai pra algum lugar…
— Lip? Lip meu-melhor-amigo?
— Tem algum problema?
— Tem.
— Qual?
— Todos.
Ela revirou os olhos.
— Claro.
— Por que tu tá flertando com meu melhor amigo?
— Por que tu beijou aquela guria nojenta? E “flertando”? Quem usa esse tipo de vocabulário?
Eu ri da irritação dela. Ela colocou a mão na cintura. Cocei o queixo.
— Então eu fiquei com aquela menina, caindo de bêbado, diga-se de passagem, o que é muito importante, aí você ficou magoada comigo e agora quer descontar em mim saindo com o meu melhor amigo? Quanta maturidade.
— Talvez, mas só talvez isso não tenha nada a ver com você. Já parou pra pensar que alguma ação minha seja baseada em um desejo meu e não uma simples reação a algo que você fez? Quanto ego.
— Cuidado.
— Com?
— Ciúmes é sintoma de paixão — respondi. — E ela não era nada nojenta. Eu acho.
— A calcinha dela era o quê? Vermelha? E não tô com ciúmes.
— Ela não tava usando calcinha. Não, pera… Falei algo errado? Desculpa… É que parece ciúmes. Mas só parece.
Ela massageou as têmporas com as pontas dos dedos e respirou fundo. O que, imagino eu, ajudou muito a não me esganar ali mesmo. Cruzei os braços sobre o peito.
— Tu nem curte o Lip, Alice. Já até esculhambou pra mim as putarias que ele apronta.
— Corrigindo: eu nem conheço ele. Minha mãe sempre dizia pra não julgar um livro pela capa…
— Ele não é o teu tipo — eu disse.
— Eu não tenho um tipo — ela rebateu.
— Tem sim. Todo mundo tem um tipo.
— E qual é o meu tipo?
— Eu sou o teu tipo.
— Quem disse?
— Eu disse.
— E desde quando a tua palavra é a verdade absoluta do mundo?
Sorri. Ela ficou sem graça.
— Por que cê tá com esse sorriso estúpido na cara, campeão?
Odiava esse “campeão” dela.
— Porque acabei de reparar que gente sempre acaba entrando em uma discussão, não importa o assunto.
Deu pra ver que ela segurou um sorriso.
— É que você é irritante.
Me preparei pra discutir, mas de canto de olho vi o Lip se despedindo do diretor e vindo pro rumo do vestiário.
— Tem mais alguém aí dentro? — olhei pra porta.
— Não… Por quê?
Empurrei Alice pra dentro do vestiário, e quando ela tentou resistir, joguei-a pra cima do meu ombro.
— Você até que é bem leve — comentei.
— Não me diga, campeão.
— É que faz tempo que quem fica por cima sou eu… Aí eu esqueci.
Ela encheu minhas costas de tapas e eu chutei a porta de um dos banheiros e empurrei-a pra dentro. Tirei o celular da mão dela e o coloquei dentro da minha mochila, junto com meus fones e atirei-a em um dos armários.
Alice encostou-se na parede do banheiro e fez uma careta quando eu fechei a porta atrás de mim. Colocou a mão sobre o peito e fez uma expressão de dor.
— Calma. Você me trouxe aqui porque pretende me matar afogada, acertei? — direcionou o olhar pro chuveiro. — O chuveiro não é o melhor lugar pra isso, a gente devia ter ido pras piscinas lá de trás…
— Na verdade — respondi, dando um passo à frente —, tava pensando que a gente podia tomar algo juntos. Tipo um banho — encarei o chuveiro. — Boa ideia, não?
— Nem sequer pense nisso, Gilles — ela mencionou meu sobrenome como um alerta.
— Por que não, Hale? — devolvi.
Ela deu um tapa na minha mão quando fiz menção de ligar o chuveiro.
— Meu cabelo tá bonito hoje.
— Quem te disse?
— Nossa.
— Seu cabelo tá bonito sempre. Ficaria bonito até se você raspasse.
— Seu jeito de tentar consertar as coisas é muito doentio, só avisando.
Ouvi um barulho de porta abrindo e a voz do Lip ecoando.
— Alice?
— Pro seu azar — gritei —, só tem Pietro.
Ouvi o som de passos se aproximando e ele bateu na porta.
— Viu ela por aí? — Lip insistiu.
Coloquei o indicador em cima da boca da Alice e fiz um “shhh” silencioso pra ela.
— Não sou babá dela — retruquei. Ela mordeu meu dedo. — Ela tem feito birra e me ignorado. Ela consegue ser bem chatinha quando quer, o que é quase sempre, só avisando.
Olhei pra ela e sorri. Ela mostrou a língua e mostrou o dedo do meio, mas ficou em silêncio.
— Queria falar com você sobre isso, a propósito.
— Se você não se importar da gente conversar enquanto eu tomo banho…
Ela me deu o olhar de dia do juízo final e antes que eu pudesse ser impedido, liguei o chuveiro, bem em cima dela. Encostei-me na porta.
— Fala, Lip.
— Convidei a Alice pra sair comigo.
— E? — perguntei, soando mais irritado do que eu pretendia. — Não sou o pai dela, não tenho que te dar permissão ou minha benção.
— Eu sei, eu sei… Mas sei que tu gosta dela. Ou é afim. Algo assim.
Fiquei sério. Ela colocou a mão na boca e me puxou pela camiseta pra baixo do chuveiro. Encostei as mãos na parede ao lado dela enquanto sentia a água descendo. Ela desceu as mãos pela lateral do meu corpo, parando na minha cintura e me prendendo junto a ela.
— Nem gosto assim dela, pra falar a verdade — fiz biquinho e coloquei uma mecha do cabelo molhado dela atrás da orelha. Ela me deu uma joelhada na coxa e eu quase gemi. — Ela é muito teimosa. E violenta.
Inclinei-me e dei um beijo no canto da boca dela. Ela permaneceu parada, birrenta.
— Sei lá, é que pelo jeito que tu falava dela pra mim… Enfim, esquece — ele fez uma pausa. Filho de uma cadela. — Ela é difícil. Eu gosto das difíceis.
Fechei os olhos e sorri, sentindo a respiração dela bater no meu rosto e soube que ela tava achando graça da situação em que eu mesmo me coloquei.
— É. Ela é bem difícil — parei de falar por um momento. — Leva ela pra comer pizza. Vai te ajudar bastante.
Uns dois minutos depois do Lip sair do vestiário, eu abri os olhos e encontrei uma Alice sorridente.
— Então… — começou.
— Então.
— Então?
— Então…
Nós dois rimos.
— Então você gosta de mim — ela bagunçou meu cabelo.
— Não te suporto.
— Eu também gosto — entrelaçou as mãos no meu pescoço.
— De mim?
— Do meu vizinho — ela mordeu meu queixo.
— Ele é bem gato, eu aprovo.
— Aham. E não me acha difícil.
Ela puxou meu cabelo pra trás, me impedindo de beijá-la quando tentei.
— Anda tá irritada? Com ciúmes?
— Não pensei nisso.
— Então me beija enquanto pensa.
— Depois que você beijou aquela nojenta? Nem fodendo. Só quando você fizer um exame pra saber se pegou alguma DST.
Ela não consegue nem amarrar os cadarços, mas sabe como me deixar louco. Pietro da Alice, Vinícius Kretek (via 27-06)
Falando sozinho - BH 04/05 (por Juliana Moreira)
LuAr se abraçando! <3
“O que e sinto por você vai além de palavras, além de sonhos, além de atitudes, vai muito além de tudo que eu imaginei sentir por alguém.”
